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Ainda sonho.

Normalmente recostado na cadeira ou encostado ao parapeito de um janela, ainda sonho. Invariavelmente surge um click! para a chama que incendeia um cigarro naquele desejo kafkiano de ser fumo e esvoaçar pelo éter.

Sim, ainda sonho.

Menos, bastante menos.

Mas ainda vou voando por aí, imaginando sentidos impossíveis, gostos inalcançáveis e palavras irreptíveis. Ainda me deixo embevecer por olhares ternurentos que não são mais que fotogramas de dias que já lá vão longe.

Demasiado longe para o que se quer mas ainda tão perto que dão um aperto no peito de os lembrar. Os olhos caídos para o colo, em jeito de vergonha, vendo as mãos juntas sobre as coxas, como se isso fosse travar alguma coisa, para se levantarem depois em direcção ao horizonte, quase implorando pela força de resistir ao frémito que avança sem pudor ou licença e faz chegar um rubor quase imperceptível na pele morena. Os cabelos escuros e escorridos que à força de brisas não dão descanso à boca que os vai engolindo, forçando os dedos finos a se lançarem num agarrar que para quem olha se deseja à velocidade frame a frame, e delicadamente, e repetidamente, os acomodar por detrás da orelha. Rebeldes que não se ficam e repetem-se à exaustão obrigando ao gesto vezes incontáveis.

Mas a cada um deles, sempre o mesmo gosto de observar, porque a cada vez há mais qualquer coisa que se nota, que se observa. Mas rapidamente os olhos voltam aos lábios curvos de um sorriso que derrete, um queixo forte mas delicado, um pescoço delineado e fino…

Entretanto apaga-se o cigarro, o fumo desaparece e a realidade bate em choque. Volta-se à existência terrena à velocidade de um salto quântico entre universos paralelos.

Esmaga-se a ponta de um cigarro como se maldito fosse sonhar.


“No cume não ouço mais que o coração”*

Pinto-te na realidade sonhada, em traços finos e coloridos. Ali, no muro sentado, de pés ao infinito, de novo sinto na ponta dos dedos a pele macia que me transporta aos céus. Sinto de novo o calor que transcende os panos e a pele, que chega ao coração e o faz vibrar. Sinto-o a cada batida como sinto a brisa que me arrefece a cara, te voa por baixo dos cabelos que brincam no ar, te eleva a ti que me elevas a mim. Sinto-te as mãos que brincam na minhas, as agarram e as espalmam em força controlada, em desejos que se expandem. Cai chuva miúda, empasta e cola a roupa, a transparece e aproxima o arrepio que não se esconde. Ali, no muro branco, de pés ao infinito, vendo como a bruma desce a montanha, faz cerrar os olhos e desfilar fotogramas de ternura, em filme colorido como os quadros que pinto contigo.

Pincel fino em traço firme, que bem te sei. Realista dos sonhos que guardo comigo, aconteceres em paralelo de um universo que não se conhece. Subo lá acima, deixo-me estar, que aqui quem manda sou eu. Não é qualquer pessoa que pode cá vir, não é qualquer pessoa que o sabe sentir.

Aqui o tempo morre devagar…

Sei-o bem.

Sei-te bem.

Sabes-me bem.

* Frase de João Garcia, alpinista, antes de se lançar na conquista de Annapurna no Nepal

15 February, 2010 17:00

Gosto de ficar quieto, sossegado, sentado no chão frio e trazer-te ao pé de mim. Gosto quando te sentas ao pé de mim, de costas na parede e me fazes voltar para ti e sorrir.

Gosto de conversar contigo sobre o tanto que já me mostraste, o tanto que já me deste. Aquele momento em que descias as escadas, aquele momento em que me mostraste as falésias, aquele momento em que me deixaste captar-te.Gosto de te falar desses instantes, desses segundos preciosos, vividos tão intensamente. Gosto de te sentir, bem perto, quando me dás o braço, quando te poisas no meu ombro.

E vem-me à memória, em filme lento, tanto e tanto.

Aquele momento, em que a brisa por momentos te levantou o cabelo, em que se tentava acender um cigarro com um isqueiro sem pedra, mas que preferia nem fumar a levantar-me e ir buscar um outro.

Aquele momento em que me pediste desculpa…

Aquele momento em que te disse "Pede-me desculpa outra vez…"


Nascer dos dias

Momentos intensos do nascer de um novo dia. Novas cores que se pintam em paletas encorpadas, cheias de cores e até de sabores.

Momentos saboreados no lento acordar do corpo e da alma, em que nos vem à mente o doce sabor dos sonhos do limbo.


Sonhos

Hoje cumpres um sonho teu. Hoje realizaste-te mais um pouco.

Por isso celebro-te.

Por isso brindo-te.


Sentidos

Sinto-te na ponta dos dedos que te percorrem a pele de fio a pavio. Sinto-te na ponta dos lábios com que te beijo sem fim. Gosto de sentir quando perdes a tua noção do espaço, do ser. Quando nada mais importa que não seja o sentir. Que a razão ou a direcção do mundo não interessa. Quando tudo se resume a fechar os olhos e vaguear na imensidão dos sentidos apurados, alertas pelas extremidades nervosas em alvoroço. Gosto que te mostres na vulnerabilidade de seres mulher e nada mais, que as fraquezas e forças, que as dores e razões desapareçam como que por magia. Gosto quando te soltas no confinado espaço entre o teu corpo e o meu. Gosto quando és pura e simplesmente minha. Gosto quando voas e me fazes voar nas asas do querer. Quando fazes do teu desejo arma de libido, quando fazes do meu querer tortura consentida.

Sabes, gosto de ti…


Somos…

…a noite que cai lançando o seu morno manto.

… a brisa envergonhada que passa pelas folhas ainda verdes de uma árvore pequena e franzina, quase se subjugando à força ténue de um vento de verão.

.. o céu límpido, cristalino de pequenos pontos luminosos, quais olhos atentos que nos fixam sem cessar, cintilantes dos olhares de paixões ao longo de tempos imemoriais, testemunhas do ardor dos amores impossíveis, da dor das perdas e do calor dos perdões.

… o chão quente, tisnante, que suporta o peso do corpo vivo que se adormece nos suaves sonhos deslizantes, transportadores ao auge do querer.

..um sonho que passa pela mente fantasiosa, qual respiro intenso que dá em urgência da vertigem que o desconhecido nos dá.

.. mais que dois, somos um, uno e indivisível.

…água e terra e fogo e ar e vento e ferro.

… mais que isso.

Somos…

…simplesmente nós.


Há dias em que apetece…

… pegar em ti e soltar-me. Deixar correr na mansidão do que me fazes ser, deixa-me ir num Bolero de Ravel ou num Tango de Piazolla, deixar-me ir nos teus braços que me conduzem. Ver o raiar do dia na paz de ser homem ao lado de ti mulher, de ver como as cores se reflectem nos teus olhos, sentir o teu sopro de brisa matinal, sentir-te a pele como mármore fresco, o arrepio que o meu toque te causa.

Vem, deixa-me segurar-te, deixa-me sentir a tua respiração na minha face, deixa-me sentir-te a ti, mulher. Vem, limpa-me a lágrima que teima em sair, lágrima de saudade, de paixão, de vontades inconfessáveis. Vem, dá-me a honra de te ter no meu ombro, de te ouvir e de te ver. Deixa-me afastar-te o cabelo da fronte, deixa-me beijar-te nos olhos como me fazes a mim, deixa-me abraçar-te com os meus grandes e rudes braços, mas que sabem sentir. Deixa-me murmurar-te o quanto te quero, sibilando ao ouvido para que o sonho não se desvaneça no ar. És sonho que me habita, aguarela que pinto, frase que escrevo. És música que imagino, acordes de sinfonia maior, asas do meu voar. És o meu sexto elemento e a minha vertigem, sonho e realidade.

Há dias em que apetece…



Sem palavras

Abraça-me e aperta-me enquanto deslizo pelo teu peito como gata.

Aperto-te entre os meus braços fortes, faço-te encostar o ouvido ao meu peito. Sente. Ouve. Repara como a máquina da vida bate contigo. Coloca a tua mão no peito, sente-o vibrar na ponta dos teus dedos, desenha-o na minha pele. Abraço-te como se não pudesse haver amanhã. Tenho sede de ti. Tenho sede da tua boca que me arrepia o corpo. Tenho saudade de sentir o teu perfume adormecer-me na noite que começa, de o sentir subir pelo peito com o calor, qual chaminé doce que canaliza todo o teu inebriante aroma até mim.

Giro sobre ti, deixo as minhas costas coladas, sinto-te húmido e quente e viril, cheiras a terra, sinto-te sorrir, quando me seguras as ancas e me forças a procurar-te e eu não vou. Mas, desço e devoro-te, num demorado, intenso, muito molhado jogo de língua roçando o céu da minha boca, também este com as duas mãos…. Como um beijo deve ser…

Sinto-te descer. Sinto-te devorar. Olho-te, sorrio-te. Puxo-te a mim, mais, sempre mais. Quero a tua boca na minha. Quero sentir o gosto da tua saliva. Senti-la escorrer para a minha boca. Quero sentir a tua língua que se enlaça na minha. Quero despir-te devagar, ouvindo o doce roçar das roupas pela tua pele, ouvir bater no chão. Quero ajoelhar-me a teus pés e descalçar-te. Morder por cima do pano que te cobre na intimidade. Sentir o calor que emana de dentro de ti. Quero-te de pé parar beber da tua fonte. Quero perscrutar o teu interior, sentir a sua maciez, a sua candura na ponta da minha língua. Sentir a tua humidade que me enche a boca de sabor forte e doce. Engolir-te no que é mais teu.

Não pares… Faz-me cegar.

Deito-te docemente no teu vale de lençóis. Cubro-te o corpo com o meu. Em pequenos e doces toques de lábios desço da tua boca, pelo teu peito, que rodeio em doce cadência. Sugo-o com os lábios fechados. Desço pela barriga, paro no umbigo, enquanto as minhas mãos te afastam as coxas. Desço até chegar ao teu ponto íntimo. Sinto-lhe o aroma. Sentes a minha respiração compassada. Sobem as mãos que delicadamente apertam o peito, o rolam entre os dedos. A língua que toca, em toque pequenos, a humidade que desponta de ti. Rodeio com a ponta de língua, em toque de cócegas. Sinto-te arquear, abrir. Penetro-te com a língua. Quero chegar ao fundo de ti. Lento, faço-me até onde não posso mais. Sinto-te na minha boca. É espesso, é delicioso. “Quero mais…” digo-te. E ofereces-te mais ainda. Sinto-te as mãos que no meu cabelo me puxam. Sinto que te invado por completo. Salivo-te em cada pedaço de pele. Sinto que me apertas com as coxas. Quero o meu prémio. Peço-te. Quero a tua explosão. Exijo-te. Quero sentir os teus espasmos electrizantes e sensuais nos meus lábio. Agarro-te as mãos, entrelaço-te os dedos. Quero. Agora…

Shhhhh…..fica.
Beija-me deixa-me saber a mim.

Sinto-te os espasmos. Subo até aos teus. Beijo-te. Toma-te. Gosto de te beijar assim, com o teu sabor. Vem. Deita-te no meu ombro. Aconchega-te a mim. Enlaça-me. Gosto de sentir o teu peito no meu.


Fotografo-te

Sento-me no teu quarto, naquele canto junto à janela. Aquele mesmo que quase não sabes que existe. Deixo-me estar na penumbra olhando-te. Sabes que adoro ver-te, desenhar-te, fotografar-te. Vejo-te enquanto dormes, de cabelos espalhados pela almofada em contraste com o branco dessa almofada que te ampara, os joelhos nus e flectidos que despontam por debaixo do lençol que te traça a figura, os braços poisados junto ao teu busto, de mão espalmadas junto ao teu queixo. Deixo-me observar o suave movimento do respirar pesado de quem dorme e sonha ligeiro, o virar lento, o esticar de pés fazendo a coberta deslizar-te pela pele em som seda, ficando cada fotograma registado na retina. Vejo-te acordar, o espreguiçar como gata, o suspirar matinal, o esfregar olhos e nariz de mão espalmada, o sentar de pernas traçadas enquanto deixas que o dia comece a entrar no teu íntimo. Olhas-te no espelho, olhas-me sem me ver, a mim que estou mesmo atrás de ti naquela ligeira brisa que te passa ao pescoço. Registo-te em cada movimento de caminhar, descalça sempre, até sentires a água que te corre no corpo, te cobre em manto transparente, te molha e te faz iludir em imaginações fantasiosas. Descubro-te enquanto delicadamente fazes as mãos traçar-te a figura, roçar-te pelo que és, chegarem-se ao âmago de ti, extrair-te o prazer que és capaz de dar. Fotograma a fotograma enquanto escolhes a indumentária, te cobres e te descubro, te pintas e eu te registo em queimada de luz.

Sabes aquele canto, aquele ali ao pé da janela, aquele que quase não sabes que existe? Eu estou lá…